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Como Fazer o Cachorro Parar de Comer Fezes: O Guia Definitivo para Entender e Resolver a Coprofagia

Encontrar o seu cão a comer fezes, um comportamento conhecido como coprofagia, é uma experiência chocante e perturbadora para qualquer tutor. A primeira reação é, compreensivelmente, de repulsa e frustração.

No entanto, é crucial entender que este comportamento, embora desagradável para nós, raramente é um ato de “mau comportamento” deliberado. Na maioria das vezes, é um sintoma complexo com raízes profundas em questões médicas, nutricionais ou comportamentais.

Este guia foi concebido para ser a sua fonte de informação mais completa sobre o assunto. Vamos mergulhar na mente do seu cão para descodificar as verdadeiras razões por detrás deste hábito, refutar mitos comuns e, o mais importante, fornecer um plano de ação passo a passo, baseado em ciência e empatia, para resolver o problema de forma eficaz e duradoura.

Secção 1: Decifrando a Coprofagia – As Verdadeiras Causas por Trás do Hábito

Antes de qualquer intervenção, o primeiro passo é atuar como um detetive. A solução não está em punir o ato, mas em diagnosticar a sua causa. A coprofagia é um comportamento multifatorial, e a estratégia de tratamento deve ser direcionada à sua origem específica.

1.1. As Causas Médicas: A Primeira e Mais Importante Investigação

Qualquer mudança de comportamento súbita ou persistente exige, em primeiro lugar, uma visita ao médico-veterinário para descartar problemas de saúde subjacentes. A coprofagia pode ser um sinal de que algo não está bem no organismo do seu cão.

  • Parasitas Intestinais: Vermes e outros parasitas podem roubar nutrientes vitais do corpo do cão. Este défice nutricional pode levar o animal a procurar instintivamente nutrientes nas fezes, numa tentativa de compensar o que lhe falta.
  • Síndromes de Má Absorção: Condições como a Insuficiência Pancreática Exócrina (IPE) impedem que o cão consiga digerir e absorver adequadamente os nutrientes dos alimentos. O resultado é uma fome constante e fezes que ainda contêm uma grande quantidade de nutrientes não digeridos, tornando-as “apetitosas” para o cão.
  • Deficiências Nutricionais: Uma dieta de baixa qualidade ou desequilibrada pode não fornecer todas as vitaminas e minerais de que o cão necessita. A coprofagia pode ser uma tentativa instintiva de procurar esses nutrientes em falta.
  • Doenças Subjacentes: Condições como diabetes, doenças da tiroide ou o uso de certos medicamentos (como esteroides) podem aumentar drasticamente o apetite do cão (polifagia), levando-o a procurar qualquer fonte de alimento disponível, incluindo as fezes.

1.2. As Causas Comportamentais: Um Reflexo do Ambiente e das Emoções

Se as causas médicas forem descartadas, o foco volta-se para os fatores comportamentais e ambientais, que são as causas mais comuns da coprofagia.

  • Comportamento Aprendido na Ninhada: As cadelas limpam instintivamente os seus filhotes e o ninho, ingerindo as suas fezes para manter a higiene. Alguns filhotes podem aprender este comportamento por imitação da mãe.
  • Tédio e Falta de Estímulo: Esta é uma das causas mais prevalecentes. Um cão que passa longos períodos sozinho, sem brinquedos, exercício ou interação, pode começar a comer fezes simplesmente por falta de algo melhor para fazer. É uma forma de autoestimulação num ambiente empobrecido.
  • Stress e Ansiedade: A coprofagia pode ser um comportamento compulsivo, uma forma de o cão aliviar o stress ou a ansiedade, semelhante a roer as unhas ou a lamber as patas de forma excessiva. A ansiedade de separação é um gatilho comum para este comportamento.  
  • Busca por Atenção: Os cães são extremamente inteligentes e aprendem rapidamente o que chama a nossa atenção. Se a única vez que o tutor interage com o cão é quando o apanha a comer fezes (mesmo que seja para gritar), o cão pode aprender que este é um método eficaz para obter uma reação.
  • Medo de Punição: Esta é uma consequência trágica de métodos de treino inadequados. Se um cão foi punido no passado por fazer as necessidades no local errado, ele pode começar a comer as fezes para “esconder as provas” e evitar a repreensão.
  • Instinto de Limpeza ou Exploração: Alguns cães, especialmente os que vivem em espaços confinados como canis ou caixas de transporte, podem desenvolver o hábito para manter o seu espaço limpo. Para os filhotes, é também uma forma natural de explorar o mundo com a boca.

1.3. As Causas Nutricionais: A Qualidade do que Entra no Pote

A dieta do seu cão tem um impacto direto e profundo no seu comportamento e saúde digestiva. Uma nutrição inadequada pode ser um fator contribuinte significativo para a coprofagia.

  • Dieta de Baixa Digestibilidade: Rações de qualidade inferior, muitas vezes ricas em “enchimentos” como milho ou subprodutos de baixa qualidade, são mais difíceis de digerir. Isto significa que uma grande parte dos nutrientes não é absorvida, resultando em fezes que ainda são ricas em matéria orgânica e, portanto, mais atrativas para o cão.  
  • Subalimentação: Um cão que não está a receber calorias suficientes para as suas necessidades energéticas diárias sentirá fome e procurará fontes adicionais de alimento. É crucial seguir as recomendações de quantidade na embalagem da ração, ajustando-as ao nível de atividade do seu cão.
  • Deficiências Específicas: Embora menos comum com as rações comerciais modernas, a falta de certas enzimas digestivas ou vitaminas do complexo B pode, teoricamente, levar um cão a procurar estas substâncias nas fezes.

Secção 2: O Plano de Ação de 4 Passos para Resolver a Coprofagia

Resolver a coprofagia requer uma abordagem multifacetada e consistente. Não existe uma “solução mágica”, mas sim um protocolo que combina intervenção veterinária, gestão ambiental, otimização nutricional e treino comportamental.

Passo 1: A Consulta Veterinária (Não Negociável)

Como já mencionado, o primeiro passo é sempre uma visita ao seu médico-veterinário de confiança. Esta consulta é fundamental para descartar as causas médicas que podem estar na origem do problema.

Prepare-se para a consulta levando um historial detalhado do comportamento: quando começou, com que frequência ocorre, e se está associado a alguma mudança na rotina ou na dieta.

O veterinário irá provavelmente realizar um exame físico completo e solicitar um exame fecal para detetar a presença de parasitas. Dependendo do historial, exames de sangue podem ser recomendados para verificar a função pancreática e despistar outras doenças.

Passo 2: Gestão Ambiental e Prevenção (A Estratégia Mais Importante)

A regra de ouro para modificar qualquer comportamento indesejado é: impedir que o cão o pratique. Cada vez que o seu cão come fezes, o hábito é reforçado. A gestão ambiental é a sua ferramenta mais poderosa para quebrar este ciclo.

  • Limpeza Imediata e Vigilância: A medida mais eficaz é remover as fezes do ambiente imediatamente após o cão defecar. Isto requer vigilância constante, especialmente em filhotes. Leve o cão para fazer as suas necessidades sempre com a guia, mesmo no seu próprio quintal, para que possa recolher as fezes assim que ele terminar.
  • O Comando “Deixa”: Este é um comando de segurança vital que ensina o cão a ignorar um objeto a seu pedido. O treino deve começar em casa, num ambiente controlado, com objetos de baixo valor, e progredir gradualmente.
    1. Fase 1: Coloque um petisco de baixo valor no chão e cubra-o com a sua mão. O cão irá tentar cheirar e lamber a sua mão. Ignore-o. No momento em que ele recuar, mesmo que por um segundo, elogie-o e dê-lhe um petisco de maior valor da sua outra mão.
    2. Fase 2: Repita o processo, mas desta vez com a mão aberta sobre o petisco. Se ele tentar apanhá-lo, feche a mão. Recompense novamente o recuo.
    3. Fase 3: Coloque o petisco no chão sem a sua mão por cima. Diga “Deixa”. Se ele se mover para o apanhar, cubra-o rapidamente. Se ele hesitar e olhar para si, recompense-o generosamente. O objetivo é ensinar que ignorar o item no chão resulta numa recompensa muito melhor vinda de si.
  • O Comando “Vem”: Um comando de recolha fiável é outra ferramenta crucial. Assim que o seu cão terminar de defecar, use um tom de voz alegre e o comando “Vem!” para o chamar para junto de si, afastando-o imediatamente da “cena do crime”. Recompense-o com uma festa e um petisco quando ele chegar.  

Passo 3: Otimização Nutricional e Suplementar

Abordar a dieta do seu cão pode ter um impacto significativo na redução da coprofagia, especialmente se a causa for nutricional.

  • Avalie a Ração Atual: Verifique a lista de ingredientes da ração do seu cão. As fontes de proteína devem ser de alta qualidade (como “carne de frango” ou “farinha de vísceras de frango”) e estar no topo da lista. Evite rações com excesso de milho, trigo e subprodutos não especificados. Considere mudar para uma ração da categoria Super Premium, que geralmente tem maior digestibilidade.  
  • Aditivos Comerciais: Existem produtos no mercado concebidos para serem adicionados à comida do cão e que tornam as fezes menos palatáveis. A sua eficácia varia muito de cão para cão, mas pode ser uma ferramenta a considerar, sempre com a orientação do seu veterinário.
  • Suplementos Naturais (com Cautela): Alguns tutores relatam sucesso com a adição de pequenas quantidades de abacaxi fresco ou abóbora à comida do cão, que se acredita alterarem o sabor das fezes. No entanto, isto deve ser feito com moderação e apenas após consultar o seu veterinário, pois qualquer adição à dieta pode causar desequilíbrios.

Passo 4: Treino Comportamental e Enriquecimento Ambiental

Se a causa da coprofagia for tédio, stress ou ansiedade, a solução passa por enriquecer a vida do seu cão e fornecer-lhe saídas adequadas para a sua energia física e mental.

  • Aumente o Exercício Físico: Garanta que o seu cão faz passeios diários de qualidade, que lhe permitam não só exercitar o corpo, mas também farejar e explorar o ambiente. Brincadeiras como buscar a bola ou correr num local seguro são essenciais para gastar energia acumulada.  
  • Implemente o Enriquecimento Ambiental: Esta é a cura para o tédio. O enriquecimento ambiental consiste em tornar o ambiente do cão mais estimulante e desafiador.
    1. Enriquecimento Alimentar: Abandone a tigela de comida tradicional. Sirva as refeições em brinquedos recheáveis, comedouros lentos ou tapetes de faro. Isto transforma uma refeição de 30 segundos numa atividade mentalmente cansativa de 15 minutos.  
    2. Enriquecimento Sensorial: Ofereça uma variedade de brinquedos com diferentes texturas. Crie “caixas de faro” com objetos e cheiros diferentes. Varie os percursos dos passeios para o expor a novos estímulos olfativos.
    3. Enriquecimento Cognitivo: O treino de obediência é um excelente exercício mental. Ensine novos truques ao seu cão. Utilize brinquedos de quebra-cabeça que o desafiem a resolver um problema para obter uma recompensa.  

Secção 3: A Armadilha da Punição – Por Que Gritar e Castigar Pioram o Problema

A reação instintiva de um tutor ao ver o seu cão a comer fezes é, muitas vezes, gritar, dar uma bronca ou até mesmo puni-lo fisicamente. No entanto, a ciência do comportamento animal demonstra de forma inequívoca que esta abordagem é não só ineficaz, mas também profundamente contraproducente.  

Punir um cão por coprofagia pode ter várias consequências negativas:

  • Aumenta o Medo e a Ansiedade: Se a causa do comportamento for stress ou ansiedade, a punição apenas adiciona mais um fator de stress à equação, podendo agravar o problema.
  • Cria o “Comedor Secreto”: A punição não ensina ao cão que o ato é errado; ensina-lhe que é perigoso fazê-lo na sua presença. O resultado é um cão que continua a comer fezes, mas fá-lo-á de forma mais rápida e furtiva para evitar ser apanhado.
  • Reforça o Comportamento de “Esconder as Provas”: Se o cão já tem medo de ser punido por defecar em casa, a punição por comer as fezes apenas reforça a sua crença de que precisa de eliminar qualquer vestígio do seu “crime”.
  • Destrói o Vínculo de Confiança: A relação entre um cão e o seu tutor deve ser baseada na confiança e na segurança. A punição erode esta confiança, fazendo com que o cão o veja como uma fonte de medo e imprevisibilidade, o que dificulta todo e qualquer treino futuro.

A abordagem correta nunca é a punição, mas sim a gestão proativa e o ensino de comportamentos alternativos através do reforço positivo, como detalhado no plano de ação.

Conclusão: Uma Jornada de Paciência, Gestão e Compreensão

Resolver a coprofagia é uma maratona, não uma corrida. Requer uma mudança de mentalidade por parte do tutor, passando da repulsa e frustração para a empatia e a resolução de problemas.

Lembre-se dos pilares fundamentais: uma avaliação veterinária completa para descartar causas médicas; uma gestão ambiental rigorosa para impedir a prática do hábito; uma otimização da dieta para garantir que todas as necessidades nutricionais são satisfeitas; e um enriquecimento da rotina diária para combater o tédio e a ansiedade.

Acima de tudo, seja paciente e consistente. Celebre os pequenos sucessos e não desanime com os retrocessos, que podem fazer parte do processo. Ao abordar a coprofagia de forma holística e positiva, não está apenas a resolver um comportamento desagradável; está a construir um cão mais saudável, feliz e equilibrado, e a fortalecer o vínculo de confiança que é a essência da vossa relação.

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